POESIA REUNIDA

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sábado, 10 de julho de 2010

UM TALENTO MÚLTIPLO
Edir Meirelles (*)

Por ocasião do V Festival Carioca de Poesia, o Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro pela sua diretoria decidiu prestar uma homenagem singular a um de seus associados. A missão que me foi confiada é dificílima pelas qualidades intrínsecas e literárias do homenageado. Falo de Sérgio Gerônimo, um poeta que encarna o espírito da nova geração. Um escritor visceralmente ligado ao fazer literário, aos problemas brasileiros e à língua portuguesa. Faz parte da geração dos anos noventa, uma generosa safra que a história haverá de peneirar. O homenageado se destaca nesta plêiade. É um poeta dotado de grande fôlego. Atua simultaneamente em muitas áreas. Um intelectual que pensa e repensa a literatura nas 24 horas do dia. Vive a poesia, se alimenta dela, dorme com ela e se nutre dela. Ao mesmo tempo a maltrata com suas exigências, destrincha-a, discute e a agride buscando exercitá-la, tirá-la da enfermaria e do marasmo em que os leitores tendem a deixá-la marginalizada.
Irrequieto, múltiplo e incansável em suas funções lítero-artísticas. Não há um só movimento poético-tribal acontecendo no Rio de Janeiro e alhures que não tome conhecimento. É a um só tempo, poeta, escritor, agitador cultural. Como se não bastasse, é também editor, incentivador, organizador de seus pares, promotor, divulgador, criador de eventos culturais, descobridor de talentos jovens, juvenis e de todas as idades. Não se contenta com a palavra escrita. É também exímio na arte de representar, um performer que se esmera na divulgação de sua obra e das de seus pares – “estes banjos – bandos de anjos” (¹) que somente o homenageado sabe conduzir com seu cajado-linguajar aurido nas fontes daqui e d’além-mar.
Sérgio Gerônimo separa, apara e ampara as palavras, revira-as pelo avesso, joga-as para o alto e, sem deixá-las caídas ou exaustas, recolhe-as revigoradas em poemas burilados. Artífice da palavra é um poeta comprometido com o seu tempo, com as atualidades culturais. Com Francisco Igreja criou a Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro (APPERJ) e juntos propuseram profissionalizar o autor, não no sentido restrito do verbo, mas na sua mais ampla concepção artística, tornando-a ferramenta indispensável ao crescimento humano.
O autor de Outras Profanas é um cavalheiro e cavaleiro que sabe como ninguém cavalgar o animal (in)domável do idioma pátrio. Cavaleiro e cavalo se confabulam, confundem-se e se fundem no caldeirão macunaímico da cultura brasileira qual centauro moderno. Sabe dos dizeres de Mário Quintana que afirma: “um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com um cavalo”(9). Sérgio é Poeta indômito e domador a um só tempo. Confirma ao cavalgar o poema:

“potro
que desmonta
que diz: - monta!
que emudece
...desce...
enternece” (³)

Sérgio sabe que o vernáculo como os eqüinos não se domam na grosseria ou no sopapo. Requer persistência, amor, carícias, bom trato, diálogo e não só papo unilateral. Embora não seja “um cavaleiro de triste figura” é sem dúvida quixotesco e quer abarcar o mundo com pernas e braços na lavra das palavras. Não se satisfaz apenas com a ordem lusofônica, mas, estende seus abraços às terras de Dom Quixote e ultrapassa as fronteiras da península ibérica.
O homenageado é múltiplo e criativo: Profanas & Afins, Outras Profanas, Coxas de Cetim, PANínsula, Um poeta passou por aqui, Pôster & Perfil são provas de seu talento irrequieto e versátil. Abrangente, vário, espelho/imagem, sombra/reflexo sintetiza em seus versos as angústias de uma geração insatisfeita. É um poeta que busca, rebusca, chamusca mais e mais o idioma no questionamento de nossos valores. É um timoneiro que não gosta de navegar nas águas tranqüilas das baías ou dos pequenos lagos. Detesta as calmarias. Só se sente realizado quando, no leme da embarcação enfrenta o mar tempestuoso. Desafia a borrasca e, no comando da nau capitânia, conduz com maestria a esquadra na crista das ondas do mar encapelado. Em versos confessa:

... “meus arrecifes estão à tona
transparecendo marés revoltas” (²).

Esse centauro da poesia é ser que se dá, atento aos gestos humanos disposto a contribuir, somar, multiplicar. Como bom psicólogo conhecedor do espírito de seus semelhantes, penetra nos intrincados labirintos da alma até onde a inspiração pode penetrar. Faz com que os que o rodeiam, evoluam na dimensão humana e poética. Homem de equipe sabe liderar sem sufocar. Cresce e estimula a evolução daqueles que o cercam.
Sua constelação e seus pontos cardeais são os membros da família consangüínea. São todos astros de primeira grandeza: Dona Eurídice Alves Delgado é uma octogenária alegre e saudável, a mãe que o acompanha em todos os momentos. O filho Khaled e a irmã queridíssima, Vanda Delgado Lucas Gonçalves, dos quais muito se orgulha, constituem pontos fundamentais em sua existência.
Nosso bardo evoca poeticamente a conquista dos mares, a história heróica dos países ibéricos: Espanha e Portugal e os feitos de seus heróis: Colombo, Américo Vespúcio, Vasco da Gama e Pero Vaz de Caminha. PANínsula é um cântico de dois povos irmãos que expandiram as fronteiras do Velho Mundo dando nova dimensão aos idiomas neolatinos.
Sérgio é o próprio “Ulisses bacante marinheiro”(4) a desbravar nas Caravelas camonianas os mares tenebrosos mundo afora. Só que desta vez o descobridor não partiu do Tejo com “as armas e os barões assinalados”(6) mas, sim do Rio de Janeiro. Em Arraial do Cabo tomara emprestada a nau vespuciana e com as armas do niteroiense Fagundes Varela, destemido, rumou em direção à fortaleza de Gibraltar. “Veleja por entre as colunas de Hércules”(7) e do topo do penhasco mediterrâneo abraça a Península de Camões, Cervantes, Ulisses, Garcia Lorca, Francisco Igreja, Fernando Pessoa. Seu brado de brasilidade se fortalece na lusitanidade, como se evocasse a miscigenação nascente da heróica Portucália que irriga o sangue e o verbo dos povos irmãos e se espalha pelos sete mares. Seu grito quixotesco ecoará além da península, atingirá a comunidade ibero-americana e onde mais haja cidadãos que se expressam em português ou castelhano:

“Ah, castela, castela
do alto de Gibraltar
eu te abracei” (5).

O autor de PANínsula não abraça apenas a península ibérica. Seus braços e sua pena são tentáculos poderosos, cujas palavras saem “por essa mediterrânea boca”(8) e alcançará os sete mares da lusofonia. Sem ser profético afirmo: as sementes sergianas germinarão em Luanda, Maputo, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Timor Leste, Lisboa, Pindorama e toda a América espanhola.
Sérgio Gerônimo é força, é ousadia, é atrevimento.

Vila de Noel, Rio, RJ, 20 de novembro de 2003.

(*) Poeta, ensaísta e romancista.
(¹) Do poema Anjo – Sérgio Gerônimo, In Outras Profanas – Oficina Cadernos de Poesia - 1998.
(²) Do poema Atol – Sérgio Gerônimo, In Coxas de Cetim – Oficina Editores, 2000.
(³) Do poema Ecuus 2 – Idem, idem.
(4) Do poema – Sérgio Gerônimo, In PANínsula – Oficina Editores.
(5) Do poema – Idem, idem.
(6) Luis Vaz de Camões - In Lusíadas.
(7) Do poema – Sérgio Gerônimo, In PANínsula – Oficina Editores.
(8)Do poema – Idem, idem.
(9) Carta – de Mário Quintana. In 80 anos de Quintana – Editora Globo, 1986.

3 comentários:

  1. Sérgio Gerônimo, você é tudo isso e muito mais. Meu carinho eterno. Concordo plenamente com todo o depoimento do Edir Meirelles. Você é flor em verbo estrela no universo da palavra que te encerra e revela. Abraço. Jania Souza

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  2. O Fanzine Episódio Cultural é uma jornal bimestral (Machado-MG/Brasil) sem fins lucrativos distribuído gratuitamente em várias instituições culturais, entre elas: Casa das Rosas (SP/SP), Inst. Moreira Salles (Poços de Caldas-MG) e Cia Bella de Artes (Poços de Caldas-MG). De acordo com o editor e poeta mineiro Carlos Roberto de Souza (Agamenon Troyan), “o objetivo é enfocar assuntos relacionados à cultura, e oferecer um espaço gratuito para que escritores, poetas, atores, dramaturgos, artistas plásticos, músicos, jornalistas... possam divulgar suas expressões artísticas”.

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